quarta-feira, 23 de julho de 2025

Ratucultracon

Ratucultracon

Não era só flor nos cabelos,
nem amor livre em San Francisco.
Era riscar mapas e modelos
num mundo blindado de arisco.

Theodore Roszak avisou:
“vem vindo aí o contra o sim”.
Mas o sistema logo engoliu
o grito punk no manequim.

Timothy Leary, de ácido e luz,
disse: “desconecte, repense, reluz.”
Hoje é coach com slides no telão
vendendo o mesmo sermão.

Jack Herer e a santa cannabis,
hoje em potes com QR code.
Angela Davis? Camiseta hype.
Revolta virou dress code.

Ginsberg ainda uiva na estante
ao lado de Bukowski e Kerouac,
mas há quem leia e ache elegante
a dor vendida em paperback.

Gil e Caetano, com sincretismo,
plantaram arte em chão careta.
Mas quantos ouvem tropicalismo
sem perceber a borboleta?

Yoko, Angela, Leary, Ginsberg,
teciam mundos alternativos.
Hoje são gifs — memes, zíper,
camuflados em feeds passivos.

A contracultura não é um look,
nem festival, nem TikTok.
É negar a pose, o truque,
é chutar o chão do próprio rock.

É ferida, não tatuagem.
É silêncio que desafina.
É beijo fora da linguagem.
É estrada sem vitrina.

E pra engendrar contracultura
é preciso comer sua gordura,
espremer sentido da fissura
sem esperar moldura.