sábado, 28 de junho de 2025

ArTesão

ArTesão

Não tenho o dom da marreta,
da pá, do cimento, da trena.
Minha obra não é de parede —
é verbo, é verso, é cena.

Não ergo casas no chão,
mas mundos na imaginação.
Minha argamassa é palavra,
meu alicerce: a emoção.

segunda-feira, 23 de junho de 2025

Gaudia et cicatrices — vita procedit

Gaudia et cicatrices — vita procedit

Ela tem mágoa, e eu compreendo.
E talvez, por vezes, algo pior.
Não fui leve — tropecei tremendo
no que se espera de alguém maior.

Errei, e nem adianta disfarçar.
Fui ausente onde era pra ser inteiro.
Hoje, afastado, não posso amparar —
e o pior é que o problema é o dinheiro.

Sempre foi. Feriu mais nela do que em mim,
e eu via, mesmo sem saber lidar.
Mas também fui parte do que teve fim,
e do que — apesar de tudo — vai ficar.

Tenho noção do quanto desalinhei,
e do que restou torto, por distração.
Mas não renego o que a pele ofereci —
os risos, os orgasmos… a combustão.

Ela também me feriu, sem rodeios.
Ninguém sai incólume de amor profundo.
Mas o brilho venceu os devaneios,
e houve beleza no nosso segundo.

Peço e pedirei perdão sem vergonha,
com enorme gratidão no coração.
Mesmo se a mágoa nela ainda sonha,
carrego isso até meu último suspiro, então.

É amor que persiste, sem exigência
de retorno, promessa ou conciliação.
Mãe de três — vértice da minha essência —
ela reside serena no meu coração.

Perdoei meu pai — não por virtude,
mas por compreender que tudo se esgota.
Como não perdoar quem, em plenitude,
foi minha casa, mesmo em rota torta?

Só não perdoo — e não saberei jamais —
o desgraçado que, no peito, ceifou
a mãe do meu primogênito. E o que se faz
com o tipo de dor que nunca cessou?

O resto é silêncio, vida que caminha,
com cicatriz, memória e muita paz.
O que foi de verdade, a alma guarda,
mesmo quando parece que já não faço.

domingo, 22 de junho de 2025

Cancri humanitatis

Cancri humanitatis

A Terra exausta sua em febre branda,
mas o mercado alega: “É só demanda.”
Deus, nas prateleiras, vira promoção:
“Compre a Verdade e leve a Salvação!”

O câncer avança — fé metastática —,
cura-milagre, dor dogmática.
Rezando em coro, o rebanho tropeça,
crendo que o dízimo paga promessa.

Do outro lado, em ternos de Excel,
o lucro posa de anjo fiel.
Sorri, privatiza, depois terceiriza:
quem morre de fome é quem mais valoriza.

A ciência alerta: estágio I.
Mas o sistema já fede, sim.
Há sintomas visíveis, necrose fria —
o nome disso? Neoliberal mania.

A única chance, sem cirurgia,
é anarcocomunismo com naturoterapia.
E o ateísmo, calmante eficaz,
tira o delírio, devolve a paz.

O corpo é coletivo, a alma é matéria.
Ninguém se salva sozinho na miséria.
Desliga o templo, rasga o cifrão:
cura se faz com vida em comunhão.

Cancri humanitatis

Cancri humanitatis

Religião, estágio III,
lucro, estágio I —
ambos sorrindo, aqui
no caos que vai por fim.

Um vende céu por tostão,
o outro corta a razão.
Pregam ordem, plantam dor,
colhem morte e dizem “amor”.

Mas há cura, ainda que fria:
naturoterapia.
Com ateísmo e rebeldia,
anarcocomunismo é poesia.

Humanitas aegrotat

Humanitas aegrotat

O mundo tem hoje 134 fogueiras acesas,
e só 3 bombeiros — bêbados.
Há conflitos com nome e sobrenome,
e outros tão antigos
que a gente já nasce devendo explicação.

A Rússia morde a Ucrânia como quem diz
“Isso sempre foi meu!”
E o Ocidente assopra com tanques e sanções,
enquanto finge que ajuda.

No Oriente Médio, o inferno tem CEP.
Desde 1948,
Israel ocupa, expulsa, mata, segrega — e se diz vítima.
Gaza virou uma palavra proibida
nos jantares elegantes.

O Hamas atira,
Israel responde com uma avalanche.
E o mundo calcula os mortos
como se fossem boletos vencidos.

No Líbano, o Hezbollah brinca de “quem começa?”
e o Irã manda presentes com pólvora.
A Síria virou tabuleiro de War,
mas sem manual de regras.

No Iêmen, o povo morre de tudo:
de guerra, de fome,
de falta de notícia.

Na África, tem guerra civil onde nem Estado há,
no Sudão, no Sahel,
no Congo, na Etiópia —
lugares onde a esperança não tem passaporte.

Na Ásia, a China sopra no cangote de Taiwan,
a Índia encara o Paquistão de sobrancelha erguida,
e no Myanmar a democracia foi presa
sem direito a habeas corpus.

E o Haiti?
Virou sinônimo de desespero.
O México e a Colômbia,
roteiros de narcos patrocinados pela omissão.

Enquanto isso, o Estado Islâmico
é tipo cupim:
atua no mundo inteiro, mas ninguém vê de onde sai.

E as potências brincam de roleta russa,
com flertes nucleares e risadinhas geopolíticas.
Trump ressurge como ressaca,
e a ONU escreve notas de repúdio em papel reciclado.

Menos ganância, abaixo à religião!
Que deus(??) desça, se quiser,
mas sem exército.

Mais tolerância, amor,
sexo (com consentimento!),
mais arte,
mais poesia,

porque matar por uma ideia
é o cúmulo da burrice —
e morrer por ela,
é só falta de criatividade.

sexta-feira, 20 de junho de 2025

Blauer Winter

Blauer Winter

Inverno azul, céu sem sombra,
hermana ao lado, presença que alomba,
Wiener Schnitzel, o gosto do dia,
calor que aquece em doce harmonia.

O tubarão ruge, cinema vivo,
ondas de metal, som expressivo,
orquestra germana, mar em festa,
invade o espaço, não se resta.

Italiano o quarteto desliza,
Si bemol em dança precisa,
sombra que nasce da luz contida,
groove que voa na noite sentida.

No Gorlitzer o ar é verdinho,
flor que sussurra no doce caminho,
fumaça leve em tom suspenso,
silêncio verde, dia intenso.

Planeta caeruleus, panis communis

Planeta caeruleus, panis communis

Menos hierarquia,
um pouco mais de anarquia (responsável),
nem tanta tirania,
nem caos irreversável.

Nem tanto ao céu,
nem tanto ao chão,
mas onde se colha
o que se põe à mão.

Neste planeta azul,
nossa casa milenar,
tanta ordem fez-se mula
sem vontade de pensar.

Chamaram de paz o medo,
de lei, a imposição,
de futuro, um degredo,
de justiça, a opressão.

Mas surgiram vozes firmes
no rastro da ilusão:
Kropotkin com seu pão livre,
Malatesta em rebelião.

Carlo Cafiero dizia:
“Comum deve ser o pão!”
E a fome não merecia
trono, farda ou patrão.

Na Comuna, um lampejo,
na Espanha, rebeldia,
na Ucrânia, o mesmo ensejo —
viver sem tirania.

O anarcocomunismo,
com sua chama tão sã,
não clama por abismo,
mas por mesa e manhã.

Nem senhores, nem muralhas,
nem partidos de exceção,
só redes onde se valha
a troca por afeição.

Cada qual com sua força,
cada um com seu lugar,
sem diploma de polícia
pra aprender a cuidar.

Pode soar utopia,
um delírio, uma paixão,
mas do caos e da agonia
brota a flor da solução.

Camaradas, não tem truque:
ou se parte essa prisão,
ou o planeta azul desaba
em silêncio e solidão.

Pode parecer sonhar demais,
mas há lógica na razão:
o anarcocomunismo
é, sim,
a solução.