sábado, 17 de maio de 2025

Coincidência (?)

Coincidência (?)

Os remédios calavam minha alma,
nem cura traziam, só falsa calma.

Virei zumbi, sem dor, sem cor,
sem vontade, sem amor.

Até que um dia eu parei,
a mente acordou, a vida voltei.

Coincidentemente (?), as pernas vacilaram,
como quem ensaia passos que não se firmaram.

Meses depois, alma leve a sorrir,
as pernas recusaram mais de seguir.

A elocução ficou de bêbado,
sem ter bebido — estranho e súbito,
como se a mente tentasse falar,
mas a língua não conseguisse pronunciar.

Veio o diagnóstico, duro final,
cerebelo danificado, dano total.

Quatro meses em hospital,
saí mais lúcido, mente a mil.

Só bem depois, idiomas comecei a estudar,
e a fala voltou a se aprimorar.

As pernas melhoraram, leve sinal,
mas recentemente regrediram — coincidência afinal?

Enquanto o cérebro estiver a mil,
e o torto bem viril,
sigo, fiel e febril.

quinta-feira, 15 de maio de 2025

Apparentia fallunt

Apparentia fallunt

A maioria quer homem que banque,
grande, parrudo, com cara de tanque.
Bonito? Nem tanto, que isso passa,
mas que tenha grana — e nunca fracassa.

Cultura? QI? Bobagem! Coisa cansada.
Preferem alguém que pague a escapada.
Se for calvo, tudo bem,
desde que o saldo no banco vá bem.

Buscam também um bom pai de verdade,
mesmo que os filhos venham da metade.
Querem alguém que abrace a missão
de ser afeto, cuidado e proteção.

Os tais requisitos, todo mundo já viu:
que seja atencioso, não muito infantil,
carinhoso e doce no jeito de ser,
e que saiba, na cama, o que deve fazer.

Mas ela não era do time comum,
gostava de charme, de algo incomum.
Não quis um armário com músculos mil,
quis um que a olhasse além do perfil.

Ele era baixinho, magrelo, elegante,
com voz de veludo, olhar penetrante.
Andava com apoio, passos bambos no chão,
mas sem barulhinho — só discreta emoção.

Não tinha casa no campo, nem grana no cofre,
mas tinha bom gosto, conversa que sofre.
Sabia da vida, da arte, do som,
e um tempero na cozinha que dava um bom tom.

Cumpria o pacote dos quesitos sagrados,
aqueles que deixam corações acelerados:
gentil, respeitoso, com toque sutil
e talento escondido num torto viril.

Ser bom pai? Era. Mas isso nem veio
no topo da lista, no início do enredo.

Só que ela quis, logo ao primeiro jantar,
saber do seu rumo, de onde veio o andar…
Ele, sincero, contou resumido,
mas foi o bastante — e tudo foi ido.

Assustou-se com traços da vida vivida,
com dores, com perdas, com luta sofrida.
Achou que era drama demais pra lidar,
e foi embora sem sequer provar.

Do beijo prometido, do toque febril,
dos segredos quentes do torto viril.
Estava bom demais pra ser realidade,
e ela fugiu — por pura ansiedade.

Mas fazer o quê? Medo é vilão,
e ela fugiu do que mexe o chão.
Preferiu um pacote bem previsível,
com selfie no espelho e papo risível.

Ele, tranquilo, seguiu seu caminho,
com afeto, saber, sem precisar de vizinho.
E o talento guardado, sem causar alarido,
segue reservado pra quem faz sentido.

Porque o mundo é grande e, no seu quadril,
ainda há quem deseje o torto viril.

terça-feira, 13 de maio de 2025

Veritas Femina Est

Veritas Femina Est

Ah, essas deusas tão reais,
gente comum, mas geniais,
com graça, fogo e ternura,
clareiam nossa loucura.

Com afeto e lucidez,
sabem mais do que o que se vê,
misturam arte e tesão,
sabedoria e paixão.

Num mundo sob o comando
de um deus falso, fabricado,
são elas que fazem valer
o milagre de viver.

Graças às Deusas!

Tempus Renascentiae

Tempus Renascentiae

O homem bebia.
Desde os doze, talvez antes,
como quem aprende a escrever:
um gole, uma letra,
um trago, uma sílaba de gozo.
Bebia com os amigos
(com amigos se bebe),
bebia com as panelas fumegantes,
com o sexo suado,
com a música aos berros,
com os livros cheios de sombras,
com o trabalho febril de criar.
Bebia até com a solidão —
e ela, a solidão, virava companhia.

Trinta anos de goles.
Não era vício, dizia —
era sabor.
O álcool era o azeite das engrenagens,
o sol do domingo,
o beijo que molha o verso.

Mas um dia, o copo ficou na mesa.
Não por nojo, nem por fé,
mas por desamor do cérebro,
e amor por alguém.
Foi parando de beber
como se vai morrendo por dentro.
E parando de gostar.
Primeiro o riso, depois o bife,
depois a palavra.
A mulher da vida foi embora
e levou com ela
o último suspiro da alegria.

Vieram os doutores.
Receitaram cápsulas,
exorcismos químicos
contra o que chamavam de abstinência.
Mas os remédios criaram um zumbi:
olhos de vidro, mãos de algodão,
um pai tentando ser pai
na névoa de calmantes.
Só os filhos,
os quatro eternos sóis,
ainda aqueciam um canto da alma.

Ele dormiu por anos,
acordado.
O mundo era um filme sem cor
e sem som.

Até que um dia,
de tão cansado de não sentir,
abandonou os frascos e os jalecos.
Saiu à rua com sede —
não de álcool,
mas de qualquer gosto que lembrasse
que era vivo.

E foi provando:
o aroma do café quente,
o riso solto dos filhos,
o sopro de uma canção antiga,
o goulash feito com mãos próprias.
E mesmo quando a vida
lhe arrancou o primogênito
(e arrancou com os dentes),
ele não tombou.

Hoje caminha
sem muletas químicas,
sem a bengala dos bares.
Caminha, e sorri.
Come, ouve, ama, escreve.
E descobre, enfim,
que o prazer é um bicho
que sabe viver melhor
sem álcool no sangue
ou fantasmas na mente.

O homem se curou.

segunda-feira, 12 de maio de 2025

Lux Nova

Lux Nova

Foi num concerto erudito e imponente
(Vila-Lobos, Bartók — noite exigente)
que vi aquela dama, bela como um tema raro,
com olhos que pareciam tocar um Fauré bem claro.

Trocamos olhares — uns quantos, bem medidos —
e sorrisos contidos, porém definidos.
No fim do programa, puxei um assunto ameno,
com aquele ar de quem sabe — mas sem ser obsceno.

Ditei meu número com voz tranquila,
sabendo que charme, às vezes, se destila.
Ela anotou com graça e educação,
mas meu instinto disse: “Calma, é só educação…”

Professora de piano, num tom encantador,
visivelmente culta, delicada e de valor.
Mas não me iludo com ares ou compostura —
tenho mestrado em música e alma de partitura.

Mesmo assim, achei improvável, quase utópico,
que me chamasse — parecia tópico
de crônica suave, dessas que se esquecem…
até que, meses depois, mensagens aparecem.

Agora, com o jantar marcado,
o impossível virou só enfeite exagerado.
E eu, que achava o conto encerrado,
me vejo entre um blaser e um verso engomado.

Se vai dar em sonata, prelúdio ou silêncio,
não sei — por ora, só penso no início.
O resto, deixo pra pauta futura:
há encontros que merecem sua própria partitura.

domingo, 11 de maio de 2025

ex cineribus

ex cineribus

trinta anos de álcool
todo dia
não era vício
era liturgia

falava merda
fazia pior
quem via de fora
achava um show de horror
por dentro era só um poeta
caindo de copo em copo
no palco da sarjeta 

esposa avisava
escola notava
e eu?
só brindava

aí procurei
um addictologue
(um tal de especialista em dar nome bonito
pra quem já se afoga no próprio grito)
dois addictologues
uns psiquiatras
remédio pra depressão,
mais remédio pra aguentar o remédio da depressão

era álcool desde pequeno
pra curar o existencial veneno
pra suportar a introspecção
de quem nasce perguntando
e morre sem explicação

perdi o emprego
perdi o sossego
e a mulher que era vida
me botou na corrida

filho no colo
e eu zumbi
voz de bêbado
sem estar bêbado
caminho torto
olhar sem fim

fui parar na terra natal
passagens pagas por um amigo-irmão,
um porto seguro em meio ao tufão,
um tio legal
e uma tia torta
que era reta no final


a mala com remédio sumiu
milagre:
falei direito
andei direito
ri de novo
e quase virei sujeito

comecei um balanço
desses que doem sem ser dança
um inventário de essência
com pitadas de esperança

mas o corpo, esse traidor
começou a cair de novo
pernas em greve
língua em slow motion
cerebelo no chão

hospital:
quatro meses
uma estação 
um inverno no coração

aí, do nada
quatro dias de alta
veio a última cicatriz
meu filho mais velho
caiu, enfim, do alto do que já não se diz
não se matou — nem quis
um pouco de paz
nos braços sutis
dos opiáceos e ansiolíticos
que a vida oferece
a quem já não crê na mesmice
de tanta dor que a vida quis
(12 anos antes, já o tinham matado
quando mataram sua mãe atriz)

recaída?
não.
já tinha caído demais.

a perda era menos que o perder
porque perder mesmo
foi vê-lo sofrer

e eu?
fênix.
não dessas de filme
nem tatuada no ombro
mas dessas que riem
com um copo d’água na mão
e um poema no escombro

sereno
resolvido
alegre
fênix,
com f minúsculo,
porque a dor já é grande demais

Deusas existem

Deusas existem


Nunca acreditei em deuses, céus ou paraísos,

Mas vi nos olhos dela os mais belos avisos.

Um dia, sem milagre, sem fé, sem nobreza,

Cruzei meu caminho com o de uma deusa.


O mundo não tem dono, e isso eu confesso,

Mas bastou o toque dela pra eu sentir o universo.

Não preciso de deus, nem de sua dureza,

Pois vi nascer o sagrado no corpo de uma deusa.