terça-feira, 22 de julho de 2025

Tres Genera Ignorantium

Tres Genera Ignorantium

Há os que nunca souberam ler
porque o tempo era outro, e duro.
Saber, ali, era luxo a temer,
fome não espera o futuro.

Gente boa, que o mundo não quis,
e ainda sorri com o pouco que tem.
Perdeu o bonde, perdeu o giz —
mas nunca perdeu o bem.

Depois tem os que escolheram não crer
em livro, ciência ou razão.
Preferem o mito, o simples dizer,
um eco no lugar da visão.

É quase um alívio, confesso,
essa recusa, esse véu de sossego.
Pois o saber, nas mãos de excesso,
é faca que corta sem medo.

E por fim, há os que não vão além
porque o corpo limita o pensar.
Não é maldade, não é desdém,
é um teto que não vai quebrar.

Mas o mundo gira e se engana,
e os três, tão distintos na essência,
acabam na mesma varanda,
tomando lição de aparência.

É que há quem saiba demais — e torça
cada vírgula a seu favor.
Não erra, mente com força,
e ainda se pinta de amor.

Esse é o tipo mais perigoso:
sabe tudo, e usa o saber.
E os três tipos — o triste, o ocioso,
e o que não pode — correm pra ver.

quinta-feira, 17 de julho de 2025

Carnudinha rosada

Carnudinha rosada 

Te retirei, amor, da geladeira,
a carne em repouso, quase inteira,
seus sucos dormiam em nostalgia,
mas eu sabia — era o dia.

Fica ali, nua e rosada,
filé mignon de carne encantada,
1 quilo e um pouco mais de tentação,
deitada sobre a minha paixão.

Misturei, sem pressa, o feitiço:
2 colheres de azeite maciço,
2 dentes de alho bem amassados,
e mostarda Dijon — beijos passados.

Tomilho fresco, 1 colher sutil,
alecrim picado, do jardim febril,
saltei o sal com dedo profano,
e pimenta moída com gesto insano.

Te esfreguei — sim, sem pudor —
com as mãos cheias de sabor,
na carne espalhei minha intenção,
com tomilho e mostarda em combustão.

Na frigideira o calor se deu,
com azeite e desejo, o fogo cresceu.
Te selei, carnudinha, com devoção,
2 a 3 minutos em cada posição.

Você gemia em crepitar sutil,
selada em fogo alto, amor febril.
Seus sucos trancados no meu querer,
rosada, quente, pronta a ceder.

Ao forno te levo, 200 graus no termômetro,
termóstato 6-7, entre a carne e o centro,
20 a 30 minutos de espera aflita —
meu coração cozinha, a alma grita.

Te kiss malpassada, leve e suada,
a 50 graus, sua carne encantada.
Te retirei enfim, do forno em brasas,
e embrulhei seu corpo em papel de asas.

Descansou amor, 15 minutos no véu,
a carne, sossegada, voltou ao céu.
Te cortei então em medalhões de afeto,
1 cm de espessura, prazer discreto.

Te apertei — ah, carnudinha — sem dor,
macia estava, rosada em ardor.
Te servi com quentes batatas e vinho,
molho de roquefort, toque indecente.

Deglacei a frigideira do pecado,
com vinho tinto e um caldo ousado.
E ali, na mesa, foi oração,
carnudinha rosada, em adoração.

Seu gosto ficou na minha memória,
como um poema — quente — de nossa história.

quarta-feira, 16 de julho de 2025

Superabundantia

Superabundantia

Subi pra cima num passo torto,
fingi ter norte, fingi de morto.
Desci pra baixo, busquei razão,
achei descaso, perdi a mão.

Entrei pra dentro com fé no verbo,
tudo tão claro… mas meio acerbo.
Saí pra fora num grito mudo,
conviver junto? Já deu de tudo.

Mais melhor era o nosso afeto,
todo enrolado, mas tão direto.
Repeti novamente a tal verdade:
certeza absoluta é só vaidade.

E o elo de ligação, tão forte,
virou ruído, virou transporte
de frase feita, de pensamento
que só caminha quando está lento.

E assim, com rima meio à toa,
a lógica cai, a língua voa,
e o mundo gira como provou:

Tem, mas acabou.

terça-feira, 15 de julho de 2025

Levanta-me

Levante-me!

Começa-se com
200 gramas de biscoito champanhe,
durinhos como mamilos arrepiados.
Reserve.

Em outra tigela,
duas vontades se separam:
gemas e claras —
como carne e alma,
como o desejo e o gesto, às vezes.

Bate-se as gemas com ½ xícara de açúcar
(como quem escreve uma carta longa e suada)
por três minutos, ou até virar creme claro,
daqueles que lembram o sol entre os lençóis.

250 gramas de mascarpone
vêm depois,
feito corpo que se oferece sem perguntas.
Misture,
até que o homogêneo nos confunda.

Agora, as claras.
Bata com uma pitada de sal,
com cuidado,
com desejo contido.
Elas subirão em picos —
firmes, mas delicados,
como arrepio bem guiado.

Incorpore-as ao creme
sem pressa,
com espátula e paciência.
Não quebre o ar.
Não quebre o encanto.

Num prato raso,
misture 1 xícara de café frio
com duas colheres de Amaretto (pra um pouco mais de pecado).
Molhe os biscoitos —
rápido, como beijo roubado.
Eles não devem se entregar de vez.

No fundo de um refratário
(20 por 20, ou o que couber na sua fome),
faça a primeira camada:
biscoito.
Depois, uma camada de creme.
Repita.
Repita.
Até não haver mais escolha
além do fim.

Cubra.
Leve à geladeira.
4 horas, pelo menos.
Ou deixe a noite passar
com seus ruídos de saliva e espera.

Na hora de servir,
um toque final:
cacau em pó polvilhado
pela peneira do desejo.

Sirva gelado.
Com olhos fechados.
E alguém disposto
a lamber os cantos do prato
com gosto.


Receita Fetiche

Receita fetiche

Pegue 800 gramas de alcatra,
corte em cubos, sem mantra.
Que a vida não vem com receita,
mas às vezes, a carne é perfeita.

Três cebolas grandes, chore sem pudor,
são lágrimas doces — não é amor.
Dois dentes de alho na dança entrarão,
e os cheiros antigos logo despertarão.

Duas colheres de páprica doce,
me disseram que ardor é fofo se trouxe.
Uma de páprica picante também,
pra lembrar que a doçura às vezes faz bem.

Cominho? Uma colher de chá.
Nem sei o porquê, mas deixe lá.
É o toque sutil do desconhecido,
aquele gosto que vem quando menos sentido.

Quatro batatas, em cubos, chegarão,
no fim do processo, elas se juntarão.
Quinhentos de caldo de carne quente,
banha os pedaços — tudo envolvente.

Duas folhas de louro, enfeitadas,
como cartas velhas não enviadas.
Três colheres de azeite, calor que não mente,
o amor cozinha mais lentamente.

Sal e pimenta, a gosto — cuidado!
Que o excesso pode ser pecado.
Salsinha picada, só no final,
pra fingir que o prato é saudável e tal.

Cozinha em silêncio, fogo discreto,
um verso mexido, um tempo correto.
Com pão ao lado e fome no olhar,
sirva com afeto, sem precisar explicar.

Mas se for brindar, que seja direito,
nada de espuma com gosto suspeito.
Cerveja de rótulo triste, sem fé?
Dispense. Recuse! Se for da AMBEV, não é.

A Grande Esfera do Destino

A Grande Esfera do Destino

Em um vilarejo enclausurado por cogumelos gigantes que pulsavam luz ao menor toque e cilindros de borracha erguidos como colunas de um templo estranho, vivia uma comunidade que, à sua maneira, conhecia a harmonia.

Chamavam-se Termieten. Não por escolha — mas por natureza.

A sociedade era rígida e perfeita. Uma monarquia sem soberano. Havia um rei, uma rainha — mas nenhum deles governava. Eram símbolos vivos, repositórios da experiência ancestral. A comunidade funcionava como um organismo. Operários, soldados, reprodutores — cada casta sabia seu papel. Ninguém mandava. Ninguém desobedecia. Todos trabalhavam para o bem comum. Havia ordem, e nisso, paz.

Falava-se ainda dos alados — uma casta mítica, de membros raros, com asas delicadas e destino incerto. De tempos em tempos, um ou outro alado partia em busca de terras mais férteis, menos barulhentas, onde talvez a Esfera não alcançasse. Nenhum jamais voltava.

Apesar de não haver chefe, castigo ou coerção, havia uma única regra — não escrita, mas inquestionável — que todos seguiam como se fosse lei ancestral:
Jamais subir ao além entre dez da manhã e meia-noite.
Não por medo. Mas por sabedoria. Contava-se que, se algum Termieten ousasse subir durante o tempo da Esfera, mesmo que voltasse ileso, toda a comunidade sucumbiria em poucas horas, sufocada por uma força invisível, incompreensível, letal.

Foi então que Feline — embora seu nome oficial fosse Emma, como tantas outras — cedeu à dúvida. Curiosa, audaciosa, exausta da rotina, cansada da serragem e da obediência, decidiu que ver a Esfera de perto era mais importante que qualquer aviso.

Feline estava no fim da adolescência, aquela fase em que o mundo parece mais estreito do que realmente é. Era rebelde, inconformada. E naquela sexta-feira, por volta das sete e quarenta da noite, subiu ao além — ainda sob efeito da serragem fermentada, que havia exagerado na noite anterior. A cabeça girava, mas os olhos ardiam com excitação e o coração batia como nunca antes.

No além, tudo era luz e caos. A Esfera rugia, batia, ricocheteava. As plantas gritavam, os cogumelos pulsavam em estalos de luz. O chão tremia, vibrava.

E então ela viu: um monstro colossal, de braços estendidos — como se os usasse para controlar o universo — olhos vidrados, tentava evitar que a Grande Esfera do Destino caísse no limbo. Quando falhava, o titã ativava um dispositivo que lançava outra esfera no além, reiniciando o ciclo. Era uma dança frenética, absurda, sem sentido aparente — e ainda assim, hipnotizante.

Feline se escondeu, observou, e depois desceu.
Ilesa.

Ninguém soube.
“Lorota do rei”, pensou.
E dormiu.

Dois dias depois, o ar mudou.

Primeiro, um incômodo leve, quase imperceptível. Depois, a opressão. Os soldados desmaiavam. Os operários erravam seus turnos. A rainha silenciou. Os últimos alados tentaram levantar voo — mas o ar já não sustentava mais nada.

Um a um, os Termieten tombaram.

Feline, a última, rastejou até o centro do vilarejo. Olhou para cima, tentando respirar. Sentiu o peso do além sobre o peito. E então, caiu.

A máquina continuou a piscar.
Ela só para de meia-noite até as dez da manhã.

E os clientes fumavam, conversavam, riam, enquanto a Grande Esfera do Destino seguia seu curso, incansável, lançada de um lado a outro dentro de um velho fliperama, num coffee shop em Amsterdã.

Tilt.

domingo, 13 de julho de 2025

Dominica magicum

Dominica magicum

Domingo azul. A tarde, um pano leve,
bailava em sete tempos, desconcerto.
No parque, o som — quarteto — vinha aberto,
e a brisa dava tom à vida breve.

Improvisava o céu, num quase outono,
as nuvens riam jazz por entre os galhos.
Verdinho do bom — sossego entre os trabalhos —
soprava um mundo em paz, sem dono ou trono.

No Parc Floral, seus olhos — meus amores —
tinham o brilho exato da manhã.
Palavras? Não. Bastava-me o fulgor.

Ficou no tempo esse acorde de flores,
um compasso guardado em hortelã,
só ouvido por quem escuta amor.