domingo, 13 de julho de 2025

Iaponicus-Romanus

Iaponicus-Romanus

Fulget caeruleum

Anima tactu tremit

Mulier gemit 



*O azul fulgura
A alma treme ao toque
A mulher geme

sábado, 12 de julho de 2025

Collegae laboris

Collegae laboris

Mbappé voa.
Henrique (Dourado) cabeceia.
Ambos jogadores,
mas só um joga.

Matuê solta beat,
Nelson Freire segura o tempo com os dedos.
Ambos músicos —
um com autotune,
o outro com a eternidade.

E no fim,
o Matuê tem mais dinheiro,
mais views,
mais gritos.

É como se Henrique Dourado
fosse mais celebrado
e mais bem pago
do que o Mbappé.

E a gente finge 
que isso faz sentido.

Sabbatum magicum

Sabbatum magicum

Azul derrama-se em silêncio
sobre o parque que respira devagar.
Nada começa nem termina,
só se move.

A nana formosa ao lado sorri,
suas auréolas rebeldes
parecem reagir à vibração de Ravel
ou talvez ao feromônio que exalo…

Aloe vera gelado,
frescor vegetal que percorre por dentro
e inventa caminhos novos,
o torto num crescendo inevitável!

O ar é floral,
não por metáfora —
por simples evidência.

Sativa sopra ideias em espirais,
a grama escuta tudo,
e os corpos se permitem
uma pausa sem culpa.

Cordas em sussurro,
piano em gotas de âmbar,
harmonia em delírio solar,
a dança escapa leve,
num compasso que dissolve o tempo.

Festival de olhares,
de tempo frouxo,
e de instantes
que não pedem legenda.

quinta-feira, 10 de julho de 2025

Fritz o gato

Fritz o gato

Fritz não é pet, é outro tipo de ser —
colocataire que só sabe acolher.
Não paga aluguel, nem lava o chão,
mas tem seu valor: e não é de ilusão.

Tem inteligência que lembra um cão,
e um toque de gato em cada ação.
Limpo, elegante, dorme em posição
que parece ensaiada pra exposição.

É base harmônica quando repousa,
um ronronar suave que tudo acalenta.
Mas se algo o inspira, em plena ousadia,
solta um miado — jazz na melodia.

É cão no afeto, sem baba, sem cheiro,
me espera na porta, fiel companheiro.
Me escuta subindo, já fica a postos —
parece até dono, com olhos expostos.

Mas tem o mistério que só gato tem,
desaparece no ar, volta zen.
É leal sem grude, é livre com norte,
me dá companhia sem trancar a sorte.

Caça o que voa, o que rói, morde e não dói,  
derruba objetos com patadas educadas.  
É artista da casa, terapeuta felino,  
com alma de cão e olhar cristalino.

Dá despesa? Quase nenhuma. E se for somar,
vale cada grão que vem do jantar.
Pois onde há um Fritz, há riso, calor —
há música viva e um tanto de amor.

quarta-feira, 9 de julho de 2025

Lettre ouverte (un éclat consigné)

Lettre ouverte

(Un éclat consigné)

Cher maçon,

T’as déjà pris une seconde pour te demander comment un type comme toi — avec cette tronche, ta calvitie qui n’a jamais eu de panache, ton ventre qu’on dirait hérité d’un autre siècle, ton absence cruelle de culture et de conversation — a pu, ne serait-ce qu’un instant, croire que t’étais à la hauteur d’une femme comme elle ?

La réponse est simple : elle était désespérée.

À ce moment-là, j’étais là sans y être vraiment. Elle cherchait un peu de douceur, de réconfort, quelqu’un qui l’emmène dîner de temps en temps, qui sorte un portefeuille un peu plus rempli que ta tête. Tu lui as offert ce vernis. Elle s’en est contentée. Un temps.

Mais toi, t’as cru que t’avais décroché le gros lot…

On se connaît depuis 1995. Seize ans de vie partagée. Trois enfants. Des hauts, des bas, de vraies épreuves. Toi, t’étais une parenthèse, un faux espoir, un détour. Et malgré ça, t’as duré. Bien trop longtemps.

Et maintenant, voilà que tu t’attaques aux enfants.
Ton message, on l’a vu — merci le contrôle parental ! Manipuler les gamins pour tenter de la récupérer, c’est non seulement misérable, mais profondément lâche.

T’as franchi une ligne.

Si t’étais un peu plus que ce masque que tu portes — un peu plus qu’un décor emprunté à la maison de campagne de tes parents, aux bateaux de tes potes ou à leurs chalets bien placés — tu saurais que ce genre de manigance ne fait que tout détruire autour de toi. Et que jamais, au grand jamais, elle ne reviendra pour ça, même si cela te permet encore de les voir de temps en temps.

Alors, fais-toi un vrai cadeau pour une fois dans ta vie :
Réfléchis — même si ce n’est pas ton fort —, comprends que tes petites magouilles ne te mèneront nulle part… et recueille-toi dans ton insignifiance.

Bonne continuation.

quarta-feira, 2 de julho de 2025

Erithacus rubecula

Erithacus rubecula

Azul
como o susto nos olhos de Kongens Have às três da tarde,
quando o esquilo salta do galho para a sua lembrança.
Blotter paper — universo dobrado ao meio,
um origami de memória escandinava,
onde o verdinho não é mato,
mas suspiro de Romkugler derretido na boca.

250 μg de saudade,
via oral,
com um copo d’água lunar.
Modal: flutuação intermitente entre o delírio e a ciclovia.
27 graus na sombra do infinito, celsius.

Rosemborg não é castelo,
é órgão interno —
a resina de flor que recobre o pulmão esquerdo dos seus sonhos.

E.S.P.
três letras flutuando no ar morno da grama,
como se alguém as tivesse deixado cair de propósito,
num tempo difícil de bater.

Amarelo,
a cor que resta quando a infância evapora
na bicicletinha embaixo da língua no começo da tarde.

Azul.
Não se esqueça do azul.
Ele é a primeira palavra da sua última frase.

terça-feira, 1 de julho de 2025

Blå sommer

Blå sommer

Verão azul, suor de gelo nas costas da aurora,
o asfalto canta em dinamarquês antigo,
e wienerbrød derrete em bocas de neon,
onde os dentes sorriem em código rúnico.

Potranca de porcelana, rebola entre as frestas do fiorde,
cachos de fogo dançam tangos em catedrais de espuma,
cada espiral é um segredo escandinavo,
bordado por deuses bêbados de aquavit.

Olhos de esmeralda abrem portais nos becos de Christiania,
onde a guitarra arde com um jazz nórdico —
um lobo toca saxofone em trêmulos compassos
e as coxas da noite cruzam-se em sustenidos.

White Widow sopra seu feitiço em Katrina,
que morde as horas com língua de âmbar,
e na Rua Pusher os relógios se despem,
marcando a eternidade com seus passos, fri.

Um cão viking lambe o tempo entre as pedras,
e um barco de fumaça parte do meu peito.
Tudo é verão,
tudo é azul.

E as curvas posteriores de Katrina 
vão se diluindo em passos leves, 
até se tornarem um sussurro no horizonte.
Hej og farvel!